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Friday, October 20, 2006

A NOITE E O SOL:
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Uma das razões que me levou a deixar de comprar o Expresso, há uns anos atrás, foi a progressiva deterioração da qualidade dos editoriais, com José António Saraiva à cabeça.Hoje comprei, pela segunda vez, o Sol, e, logo na página 3, lembrei-me por que tinha deixado de comprar o Expresso. JAS escreve mais um texto ordinário sobre o problema do aborto e da sua descriminalização. Intitula-se "Uma cultura da morte" (sem uma única referência, aliás, a quem celebrizou a ideia e a expressão), e a frase que aparece sob a fotografia do bébé sorridente é "A esquerda deveria estar hoje a debater a morte ou a interessar-se pela vida?".Segundo JAS, o primeiro culpado é o País, em geral. É preciso "promover os nascimentos" e apregoar que o melhor do mundo são as crianças - e... que faz o País? Promove? Apregoa? Não: "em lugar disto (sic), discute-se o aborto. Discutem-se os casamentos de homossexuais (por natureza estéreis). Debate-se a eutanásia. Promove-se uma cultura da morte".Este primeiro trecho é de elevada complexidade: repare-se, em particular, no "em lugar disto" - como se fossem problemas alternativos - e na associação dos casamentos de homossexuais com "o aborto" e "a eutanásia": tudo sob o signo da "cultura da morte". Depois vem a conspiração da dissolução dos costumes por trás do aborto: "o que está em causa é uma desculpabilização do aborto, para não dizer uma promoção do aborto. Tal como há uma parada do 'orgulho gay', os militantes pró-aborto defendem o orgulho em abortar. Quem já não viu mulheres exibindo triunfalmente t-shirts com a frase 'Eu abortei'?" Sim: quem não viu? E daí? Temerá JAS que, caso a descriminalização vingue, essas t-shirts se multipliquem, na rua, nas escolas, nas igrejas - cada vez mais triunfalistas? É ao sofrimento desse espectáculo que JAS quer ser poupado? Nos países onde o aborto é permitido de forma mais ampla, é usual organizarem-se paradas anuais das abortantes, tipo Abortion Pride? E isto tem, verdadeiramente, alguma relevância para o assunto?Na última secção vem a pergunta mais ordinária do editorial: "será que a esquerda, ao defender o aborto, a adopção por homossexuais, a liberalização das drogas, a eutanásia, quer ficar ligada ao lado mais obscuro da vida?"A ideia de dar uma vida melhor a uma criança, seja qual for a orientação sexual do(s) adoptante(s) - pertence "ao lado mais obscuro da vida"?! O não querer prolongar um sofrimento atroz e inútil - pertence ao "lado mais obscuro da vida"?! Independentemente da posição que se tenha sobre os assuntos, esta não é uma forma digna de discuti-los.Não sei o que a "esquerda" quer. Mas espero que não queira ligar-se ao lado mais brilhante da vida, tal como a vê o editorialista do Sol: um lado onde estas chatices são meras sombras de outros, tão outros que nem nos tocam. [Mar salgado]
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Mas que grande imbecil...

1 Comments:

At 7:24 PM, Blogger Andreia do Flautim said...

Só falta discutir o sexo dos anjos...

 

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